Quando você atravessou as nuvens de algodão,
e apoiou seu corpo na borda do campo de flores da estação e derramou seu olhar por sobre a extensão da minha vida, pude perceber quão importante eras para os meus dias desiludidos, minhas noites com fantasmas do passado, minhas manhãs desprovidas de calor e esperança;
Quando você se instalou feito posseiro dentro do meu coração e fez um ninho com folhas douradas de plátano, senti que era em você que residia minhas mais doces e perenes sensações de conforto e prazer.
Quando você chegou como quem vem do mar, molhado de maresia e encharcado de saudade pela lonjura do tempo, pude perceber que em você havia um porto e que esse porto era minha segurança e bem-estar, minha paz e realização e pude adormecer com uma concha no ouvido escutando a mar que empurrou você pra mim;
Quando você madrugou em minha porta à espera da luz que toda manhã traz, senti a mais cristalina certeza de que sem você o vazio se instala sem pedir licença, a noite chega com todas as trevas, os dias se arrastam pesados e acorrentados ao ontem, e o sabor mais adocicado do viver se transforma em gosto de dor sem remédio.